9. TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE 31.7.13

1. A VINGANA DAS ORCAS
2. DELRIOS NA IDADE DA PEDRA

1. A VINGANA DAS ORCAS
Documentrio feito por cineasta brasileira mostra que a vida nos parques aquticos est estressando os bichos, a ponto de ser cada vez mais frequentes os ataques mortais aos treinadores
Ana Carolina Nunes

Com 11 unidades, o parque aqutico SeaWorld recebe mais de 12 milhes de visitantes por ano. A maior atrao da rede so os shows em que treinadores interagem com as orcas. Depois de reger movimentos, danar dentro dgua e pegar carona na boca dos bichos, os treinadores so, invariavelmente, ovacionados. Mas na tarde de 25 de fevereiro de 2010, na filial da Flrida, tudo deu errado. A treinadora Dawn Brancheau entrou na gua para se apresentar com a orca macho Tilikum. O animal no estava para brincadeiras. Deu rabadas, prendeu a moa com a boca e arremessou-se sobre ela, que morreu.

ATAQUE DE NERVOS - O nvel de estresse das orcas sobe e a expectativa de vida cai no cativeiro

A tragdia inspirou a diretora Gabriela Cowperthwaite, que nasceu no Brasil e vive em Los Angeles. Ela resolveu investigar a vida das orcas em cativeiro. As concluses esto no documentrio Blackfish, lanado este ms no Hemisfrio Norte, e que chega ao Brasil no fim de setembro. O filme usa imagens fortes da captura de orcas, cenas do ataque de Tilikum e depoimentos de ex-treinadores para defender a tese de que o animal pode ter reagido aos anos de confinamento. Vale lembrar que a treinadora foi a terceira vtima fatal de Tilikum, um macho reprodutor capturado na regio da Islndia.

SURFE PERIGOSO - No  fcil manter sob controle um animal que tem fama de assassino

Mario Rollo, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pesquisador na rea de ecologia marinha, diz que  difcil avaliar se a ocorrncia foi fruto de uma revolta do animal: No  sabida nem a populao dessa espcie. Portanto, as consequncias da vida em cativeiro ainda no podem ser conclusivas. Se h dvidas quanto ao estresse, no resta nenhuma quando o assunto  longevidade. Na natureza, elas vivem at 90 anos, tempo que cai pela metade no cativeiro.

O SeaWorld se defende. O filme conduz erroneamente o tema e deixa de lado pontos importantes, como nosso programa de resgate e reabilitao, que j recuperou 22 mil animais, afirma o vice-presidente do parque, Fred Jacobs. Segundo ele, depois de restabelecidos, os bichos so devolvidos  natureza. Os saudveis ficam l, para a alegria dos visitantes. Como no parece disposto a seguir a receita dos circos que descobriram que animal no  entretenimento,  bom o SeaWorld orientar seus treinadores para que, na hora de recompensar as orcas pelo truque bem-feito, atirem um calmante junto com a sardinha.


2. DELRIOS NA IDADE DA PEDRA
Estudos revelam que artistas pr-histricos pintavam sob a influncia de drogas e usavam seres imaginrios e mundos sobrenaturais para representar a religio
Juliana Tiraboschi 

Os mundos da msica e do cinema vivem fornecendo argumentos para quem associa arte a drogas. De cara limpa, Amy Winehouse seria uma cantora to cativante? Sem ter passado por um longo perodo de excessos, Robert Downey Jr. teria se tornado um dos mais requisitados atores de Hollywood? Pode ser que no, mas uma nova pesquisa traz comprovaes de que o convvio de artistas com as drogas  muito mais antigo do que se imaginava. Depois de estudar pinturas rupestres de at 80 mil anos, cientistas da Universidade Nacional Autnoma do Mxico e da Universidade de Tquio, no Japo, concluram que boa parte da arte da Idade da Pedra foi produzida sob o efeito de substncias alucingenas.

VIAGEM - Cientistas associam espirais e desenhos com seres imaginrios a estados alterados de conscincia

Para defender a tese, o autor principal do estudo, o alemo Tom Froese, que atua na universidade mexicana, afirma que padres geomtricos e ordenados encontrados na arte rupestre no so aleatrios, mas provocados por estados alterados de conscincia. Alm de serem iguais em peas de pocas e continentes diferentes, alguns desses padres assemelham-se a desenhos encontrados em pesquisas recentes com pessoas que consumiram substncias alucingenas.

Exemplo disso  uma pesquisa feita por cientistas americanos nos anos 1950. Eles estudavam os efeitos da mescalina, alucingeno extrado do cacto peiote. Os pesquisadores pediram que voluntrios que haviam ingerido a substncia desenhassem as imagens que viam. Os resultados foram espirais, linhas paralelas e outras formas geomtricas muito comuns em peas encontradas por arquelogos e antroplogos que trabalham com povos nativos. Se dermos canetas nas mos de chimpanzs, bonobos ou at de crianas humanas, eles no desenham padres geomtricos. Ento deve haver outros fatores em jogo que no a aleatoriedade, diz Froese.

O uso de substncias qumicas que alteram o crebro  visto como algo natural pelo grupo que fez o levantamento.  um hbito adotado at por alguns animais. H elefantes e macacos, por exemplo, que comem frutas fermentadas ou se esfregam em plantas alucingenas com o intuito de ficar chapados. Apesar disso, os pesquisadores reconhecem que, em alguns casos, esses estados alterados de conscincia podem ser alcanados sem o uso de qumicos.  possvel chegar l por meio de rituais e ritos de passagem, como os praticados pelos ndios americanos com meninos e meninas na puberdade. Esses ritos seguem a frmula de separao do indivduo de seu grupo e o isolamento. O senso de pertencimento a um universo desaparece, e isso provoca novas percepes, afirma o pesquisador.
 Alm das ideias expostas na pesquisa, os cientistas defendem que a arte desse primeiro grupo de pintores abstratos seja mais valorizada. Afinal, em torno deles havia rvores, animais, o Sol, as formaes rochosas e uma infinidade de objetos que poderiam inspirar desenhos. Em vez disso, eles optaram pelos padres. Outro estudo mostra que esse desapego s formas mais pictricas de desenho abriu caminho para artistas bem mais recentes, que tambm no se contentavam em registrar o mundo visvel  sua volta.

SOBRENATURAL - Pinturas e gravuras nas montanhas Apalaches, nos EUA, mostram figuras fictcias que mesclam imagens humanas, animais e personagens em transformao

Pesquisadores da Universidade do Tennessee (EUA) analisaram pinturas e gravuras em pedras encontradas em uma regio das montanhas Apalaches, nos Estados do Kentucky, Tennessee e Alabama. Os desenhos estudados datam de seis mil anos atrs e mostram que os povos que habitavam o local j tinham uma noo de universo e religio e dividiam o mundo em trs dimenses: a superior, habitada por seres celestiais; a mediana, da natureza; e a inferior, caracterizada pelo perigo, pela escurido e associada a morte, transformao e renovao.

Nas paredes das cavernas, essa viso do mundo se refletia em desenhos de seres imaginrios e noes de um mundo sobrenatural. Por meio de registros etnogrficos e de artefatos decorados, sabemos que esse universo em trs dimenses era uma parte central de muitas filosofias religiosas na Amrica do Norte e que os americanos nativos eram e ainda so um povo extremamente religioso, diz Jan Simek, professor do departamento de antropologia da Universidade do Tennessee e autor principal da pesquisa. Como os pintores chapados de 74 mil anos antes, os artistas plsticos do perodo estavam livres de registrar meramente o mundo visvel. Podiam se concentrar apenas nas formas de registrar sua f.

Na comparao entre os dois estudos das universidades, h um dado curioso para os apreciadores e historiadores de arte contemporneos. Trata-se da inverso na evoluo das escolas artsticas ao longo do tempo. Na pr-histria, o abstracionismo vem antes da arte sacra.

